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sexta-feira, 1 de maio de 2009

Sexta de AUGUSTO DOS ANJOS

Vandalismo

Meu coração tem catedrais imensas
Templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.

Na olgiva fúlgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradiações intensas
Cintilações de lâmpadas suspensas
E ametistas e os florões e as pratas.

Com os velhos Templários medievais
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos...

E erguendo os gládios e brandindo as hastas,
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos
(Engenho Pau D'Arco (PB) 1884 - Leopoldina (MG) 1914)
In: "Clássicos da Poesia Brasileira", Klick Editora, 1997.

Augusto dos Anjos _ se me permitem o trocadilho tolo _ nada tem de angelical. A
poesia dessa "singularíssima pessoa" é o retrato de um
indivíduo atormentado diante do contexto de revolução industrial tardia
que anunciava ares de progresso ao Brasil.
Esse Boca Maldita da
escatologia_lide Gregório de Matos Guerra, da sacanagem e do desprezo às
instituições_, era capaz de trazer questionamentos sobre cientificismo,
individualimo, materialismo e todos os ismos que tornam o homem moderno menos
humano e mais máquina.
De engenhosa poesia, contraria o nome porque é
diabolicamente um poeta dos bons.

Na rede:
http://www.memorialaugustodosanjos.com/poesias.html

domingo, 5 de abril de 2009

Domingo de Chico Buarque


Trevo retorna do mundo da lua (ou, pelo menos, tenta...)!


Chico Buarque de Hollanda já se definiu seresteiro, poeta e cantor
(Literatura Comentada, 1980).
Nessa semana, a faceta
prosador do artista voltou à cena com o lançamento do romance
Leite
Derramado
(título já criticado pelo mestre Rubem Fonseca). Enquanto não
apreciamos a obra(já reverenciada pelo mestre Luís Augusto Fischer), ou torcemos
o nariz para ela, vamos de canção!


Construção

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado

sexta-feira, 13 de março de 2009

Sexta de Dennis Radünz

A arte de ser feliz

Diante da minha janela corre o cosmo - espanta-me que exista tamanha grandeza dentro da esquadria de alumínio e vidro, aqui, porque o cosmo principia no exato lugar em que se o alcança. Distraidamente, a olhos vistos, a eternidade dos espaços infinitos principia na janela, diante de uma xícara de café que se evapora e, também, da cidade que se derrama no planeta como se fosse uma folha de papel-volátil. Tudo isso me felicita. Porque, no Grego, kósmos significa ordem e também beleza, de onde deriva o vocábulo cosmético. Posso dizer que toda essa beleza está em ordem.
Da minha janela avisto o mundo, sobre-humano, que não me faz senti-lo muito maior do que a pequena chaminé poucos metros abaixo do meu quarto andar. Chaminé envolta pela rabiola duma pipa que, como a cauda dum corpo cadente, veio abraçar a torre tênue de tijolo e argamassa. Rabiola que se perdeu em torno dos tijolos, planta parasita, mas que é, também, o abraço que tem faltado a tantos. Chaminé com pandorga em volta, decididamente, me felicita. Da janela, observo também o terreno baldio, na esquadria de muros sem reboco, com a sua mata desarvorada. Se os deuses continuarem existindo, nenhum edifício irá brotar desse lugar que é coberto, de lado a lado, pelo pio amarelo de um canário canoro. Uns artefatos sem uso - tábua de lavar roupa, cinza de fogueira, cavalo pastando capins maduros - compõem esse mínimo universo em que costuma cavoucar o homem velho com o cachorro. Eles conversam, sozinhos, achando que o infinito começa, por exemplo, no silêncio vizinho. Isso os felicita.
Da mesma janela, adivinho o ribeirão subterrâneo, carregado em segredo por debaixo das lajes da servidão (que é um outro nome para beco), descido desde o Morro do Horácio, enquanto, sem que se saiba, um alevino sobrevivido corre na direção da água salobra. Mais adiante, o próprio mar, morno, se evapora na mesma direção dos ventos fracos (na concepção de um ciclone novo?) e um helicóptero da polícia corta a maresia ao meio. Tudo isso existe no cosmo afora da janela.
Janela de uma felicidade puérpera - como não dizer que eu e Colombina observávamos, daqui, não necessariamente vestidos, o cosmo? Dessa mesma janela de onde vejo um papel pousar (um papel-pólen que se deita no vazio), com um nome nele escrito, um nome que alguém perdeu e outro alguém irá achar, e, por causa disso, uma felicidade nova me envelopa e a mim se endereça, porque sei que o destino será outro e, olhos nos olhos, a remetente e o destinatário irão pensar que o mundo nasceu de novo, só por causa do seu encontro amoroso. Isso ainda me felicita.
Na janela, as situações mais corriqueiras alegram - o gole de iogurte, um aceno, uma chuva que veio, depois saiu. E é nessa mesma janela que exercito contemplar o mundo com olhos baços - hipermétrope de nascença, sem óculos, observo o cosmo se confundir por detrás das figuras de luz, como se tudo o que é sólido evolasse, deixando em seu lugar somente o leve aroma da sua ausência, como a linha de luzes do Continente que desaparece. Resta a felicidade que nasce ao descobrir-se que as coisas não são somente a sua fisionomia.
Mas, são tantas essa mesma e única janela que quase me esquecia de ser feliz por dentro. Dou então as costas ao cosmo e, dentro de casa, diante do mundo, a balbúrdia de livros contém nenhuma beleza aparente. Isso também me felicita, porque recordo o pré-socrático Heráclito de Éfeso: "o mais belo dos mundos é qual uma pilha de detritos amontoados ao acaso". E o cosmo me esquece, atarefado que está com o seu trânsito de buracos negros e de nebulosas.
Sinto apenas uma curiosidade: diante da janela, a menos de mil metros, na Polícia Federal, vive Fernandinho Beira-Mar 1 - não sei se, dali, ele pode avistar o cosmo; não sei de sua salga de lágrimas; não sei de suas alegrias íntimas. Mas sinto que ele, eu, todos, temos o destino do tamanho de nossa arte de extrair felicidade de um nada, ou de dentro, ou do cosmo.


- Nascido em Blumenau, Denis Radünz possui uma série de publicaçãoes, entre traduções de poemas infantis do escritor alemão Fritz Müller (1822-1897) a criações de sua autoria, a exemplo do livro Extraviário (Joinville: Letradágua, 2006). Coordena a editora Nauemblu e é cronista no jornal Diário Catarinense.
É considerado um poeta refinando, com domínio singular de sua língua. A metafísica e a finitude são questões perenes em sua poética. No poema citado, observa-se outra faceta do poeta: as expeirmentações na forma. O poema aqui é conteúdo e instrumento.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Sexta de Laura Esteves

INCONSTANTE

Dia sim, acordo alegre,
cuido o jardim e o passarinho.
Dia não, com muita raiva
eu chuto o cão, xingo o vizinho.

Dia sim, feliz da vida,
passo carmim, vou pra varanda.
Dia não, bem deprimida,
deito no chão,tudo desanda.

Dia sim, mulher prendada,
faço um quindim, convido amiga.
Dia não,viro bandida,
arma na mão, navalha na liga.

Dia sim?
transo com todo mundo.
Dia não?
também e a todo instante.

É que em matéria de sacanagem
eu já sou bem mais constante.



Nascida no Rio de Janeiro, Laura Esteves faz parte do grupo Poesia Simplesmente, que organiza o Festival Carioca de Poesia. Em dezembro do ano passado, teve seu trabalho saudado pelo
Sindicato dos Escritores do Estado do Rio De Janeiro, através do Trféu Aimberê - Destaque Cultural do Ano. Poetisa que caminha com tranquilidade da poesia às crônicas de reminiscências.

Mais em:
http://psimplesmente.blogspot.com/
oglobo.globo.com/blogs/prosa/post.asp?cod_post=48036 - 45k -

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Sexta de Raul de Leoni

Raul de Leoni (1895 - 1926)

Ironia! Ironia!
Minha consolação! Minha filosofia!
Imponderável máscara discreta
Dessa infinita dúvida secreta
Que é a tragédia recôndita do ser!
Muita gente não te há de compreender
E dirá que és renúncia e covardia!
Ironia! Ironia!
És a minha atitude comovida:
O amor-próprio do Espírito, sorrindo!
O pudor da Razão diante da Vida!


- Comemorado na Semana de 22 pela publicação do livro de poesias Luz Mediterrânea, Raul de Leoni é negligenciado pela crítica nos anos seguintes. Sobre ele, disse Carlos Drummond de Andrade:

"É um poeta diferente, de expressão muito cuidada e elegante, mas
não se confunde com os cultores do parnasianismo em agonia. O
modernismo ainda não surgira; o simbolismo já não dava mais frutos.
É um espírito imbuído de pensamento clássico, a que acrescenta
um desencanto moderno, no sentido filosófico. Esse poeta não fará
escola: demasiado civilizado, sua aristocracia natural há de marcá-lo
e isolá-lo."

Para saber mais:
http://www.rauldeleoni.org/Raul%20de%20Leoni.html

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Sexta concreta

PÓS-SONETO, de Augusto de Campos

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

A poetisa das femininas e feministas

GILKA MACHADO (Rio de Janeiro -1893 - 1980)


Volúpia

Tenho-te, do meu sangue alongada nos veios,
à tua sensação me alheio a todo o ambiente;
os meus versos estão completamente cheios
do teu veneno forte, invencível e fluente.

Por te trazer em mim, adquiri-os, tomei-os,
o teu modo sutil, o teu gesto indolente.
Por te trazer em mim moldei-me aos teus coleios,
minha íntima, nervosa e rúbida serpente.

Teu veneno letal torna-me os olhos baços,
e a alma pura que trago e que te repudia,
inutilmente anseia esquivar-se aos teus laços.

Teu veneno letal torna-me o corpo langue,
numa circulação longa, lenta, macia,
a subir e a descer, no curso do meu sangue.









Pintura de Claude Monet
"Madame Monet and her son" (1875)



sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Flávio Luis Ferrarini

BOBAGENS

Pé-de-galinha dá em velho
Espinha dá em adolescente
Pneu dá em baranga
Verruga dá em parente
Moscão dá na sujeira
Essas bobagens dá na gente

http://www.flavioluisferrarini.com.br/int_outros.php?id=2&tipo=2

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Sexta de William Blake (1757-1827)

A poison tree

I was angry with my friend:
I told my wrath, my wrath did end.
I was angry with my foe:
I told it not, my wrath did grow.

And I water'd it in fears,
Night & morning with my tears;
And I sunned it with smiles,
And with soft deceifull wiles.

And it grew both day and night,
Till it bore and apple bright.
And y foe behed it shine
And e knew that it was mine,

And into my garden stole,
When the night had veil'd the pole;
In the morning gladI see
My foe outstretch'd beneath the tree.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Antonio Carlos Secchin

Sagitário

Evite excessos na quarta-feira,
modere a voz, a gula, a ira.
Saturno conjugado a Vênus
abre portas de entrada
e armadilhas de saída.
Evite apostar em si, mas, se quiser,
jogue a ficha em número
próximo do zero. Evite acordar
o incêndio implícito de cada fósforo.
E quando nada mais tiver a evitar
evite todos os horóscopos.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Sexta de Bocage

MEU SER EVAPOREI NA LIDA INSANA

Manuel Maria du Bocage (1975-1805)

Meu ser evaporei na lida insana
do tropel das paixões que me arrastava;
ah! cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
em mim quase imortal a essência humana!

De que inúmeros sóis a mente ufana
existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe a natureza escrava
ao mal, que a vida em sua origem dana.

Prazeres, sócios meus e meus tiranos,
esta alma, que sedenta em si não coube,
no abismo vos subiu dos desenganos.

Deus! ó Deus! quando a morte a luz me roube,
ganhe um momento o que perderam anos.
Saiba morrer o que viver não soube.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Sexta de Lord Byron (1788-1824)

She walks in beauty

She walks in beauty, like the night
Of cloudless climes and starry skies;
And all that’s best of dark and bright
Meet in her aspect and her eyes;
Thus mellowed to that tender light
Which heaven to gaudy day denies.

One shade the more, one ray the less,
Had half impaired the nameless grace
Which waves in every raven tress,
Or softly lightens o’er her face;
Where thoughts serenely sweet express,
How pure, how dear their dwelling-place.

And on that cheek, and o’er that brow,
So soft, so calm, yet eloquent,
The smiles that win, the tints that glow,
But tell of days in goodness spent,
A mind at peace with all below,
A heart whose love is innocent!